Razão e Fé

[Este artigo é literalmente uma nota de rodapé (elas costumam ser longas) a um trecho de um livrinho que estou escrevendo sobre a História da Igreja Primitiva (até aD 476). É uma história diferente, menos cheia de fatos e mais cheia de elucubrações filosóficas. Em relação à questão que dá título ao que, aqui, é apenas um artiguete, posso dizer que, desde que entrei no Seminário, em Fevereiro de 1964, e ali vim a fazer uma disciplina de Introdução à Filosofia, com o Rev. Francisco Penha Alves, venho lutando com ela. Vai fazer 53 anos no início do ano que vem (que está perto). Foi esta questão que, em Maio de 1970, quando ganhei uma bolsa para fazer o meu Ph.D. na Universidade de Pittsburgh a partir de Setembro, me fez optar por me concentrar em Filosofia e não em História – embora eu tenha de certo modo juntado as duas áreas escrevendo minha dissertação sobre um tópico do ponto de vista da História da Filosofia… EC – 20161116]

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Inspirado em Tomás de Aquino (1225-1274), Blaise Pascal (1623-1662), John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776), William James (1842-1910), William Kingdon Clifford (1845-1879), Karl Popper (1992-1994) e William Warren Bartley III (1934-1990), este, orientando de Popper e meu orientador de Doutorado, que, a meu ver, deram a esta questão formulações que só podem ser chamadas de clássicas, eu me arriscaria a dizer, depois de ter refletido sobre ela por mais de cinquenta anos, tendo mudado de ponto de vista algumas vezes, QUE, quanto às credenciais epistêmicas dos enunciados, nossa atitude para com eles pode ser classificada como:

  • Racional (secundum rationem),
  • Irracional (contra rationem), ou
  • Suprarracional (supra rationem).

(A) SE existe evidência adequada A FAVOR DE um enunciado, a atitude racional para com o enunciado é assentir intelectualmente a ele com base na convicção racional produzida pela evidência. Neste caso, a atitude racional nos obriga a não “desassentir” intelectualmente do enunciado (se é que posso inventar esse neologismo, “desassentir (de)”, que significa “não assentir (a)”). Desassentir intelectualmente dele, neste caso, seria, portanto, assumir, em relação a ele, uma atitude irracional.

(B) SE existe evidência adequada CONTRA um enunciado, a atitude racional para com o enunciado é desassentir intelectualmente dele com base na convicção racional produzida pela evidência. Neste caso, a atitude racional nos obriga a desassentir intelectualmente do enunciado. Assentir a ele, neste caso, seria, portanto, assumir, em relação a ele, uma atitude irracional.

(C) SE, porém, NÃO existe evidência adequada A FAVOR de um enunciado, mas também NÃO existe evidência adequada CONTRA ele, a atitude racional para com ele é suspender juízo em relação ao enunciado (isto é, não assentir intelectualmente a ele nem desassentir dele, com base em convicção racional, por não haver evidência adequada nem a favor dele, nem contra ele), MAS não é uma atitude irracional, em relação a esse enunciado, assentir intelectualmente a ele como objeto de fé (posto que não há evidência adequada contra ele).

(D) ASSIM, os enunciados que podem ser objeto de fé são aqueles (a) em relação aos quais a gente NÃO é racionalmente OBRIGADO, intelectualmente, com base em suas credenciais epistêmicas, nem a assentir, nem a desassentir, (b) MAS em relação aos quais PODE, intelectualmente, com base em considerações não epistêmicas, assentir.  A fé, assim, não é racional, mas, nessas condições, também não é irracional.

Em Salto, 16 de Novembro de 2016

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