A Fé, Mesmo no Falso, Surte Efeitos

O último artigo meu aqui neste blog foi sobre “Divina Providência ou Acaso”. Foi postado em 30 de Novembro de 2016, dois meses e meio atrás, por ocasião da queda do aviào que carregava o time da Chapecoense. De certo modo volto à carga, mas ampliando o escopo do tema.

Tenho refletido bastante ultimamente em algumas doutrinas cristãs de central importância na tradição reformada (vertente calvinista), embora certamente não sejam exclusivas dessa tradição: a justificação pela fé, a eleição e a providência.

Minhas reflexões caminham na seguinte direção: o assentimento a essas doutrinas faz profunda diferença na vida das pessoas – mesmo que o objeto do assentimento não seja verdadeiro, isto é, mesmo que não haja justificação pela fé, eleição e providência. O mais importante é a existência da crença, não a existência do objeto da crença.

Minhas reflexões foram estimuladas pelas minhas leituras, e pelo esforço de interpreta-las, enquanto escrevia um livrinho (que terminei de escrever em Dezembro) sobre  História da Igreja Antiga (do início ao ano 476). Mas as raízes dessas reflexões estão distantes do tempo, desde que li Rudolf Bultmann pela primeira vez, nos anos 1964-1966, quando no Seminário de Campinas. Bultmann parecia ter um certo desinteresse pela história propriamente dita (Historie, em Alemão, os fatos que realmente aconteceram). Seu interesse maior era pela história narrada (Geschichte, em Alemão, a interpretação dos fatos, a história que é contada e que as pessoas acabam por acreditar que corresponde ao que de fato aconteceu). Bultmann não tinha interesse algum no chamado “Jesus Histórico”: onde e quando nasceu, se era filho de José e Maria, quando foi batizado, quando começou seu ministério, o que fez, e quando morreu. Se Jesus de fato foi ressuscitado dos mortos, para ele, era algo que não tinha importância. Para ele nem mesmo se Jesus de fato viveu era importante. O importante era aquilo em que os apóstolos, primeiro, aparentemente vieram a acreditar, e, depois, o restante dos cristãos, com base na história contada pelos apóstolos.

A história que os apóstolos contaram era verdadeira? Não importa. Se não era verdadeira, eles a inventaram ou realmente passaram a acreditar nela com base (por exemplo) na possibilidade de que alguém tenha descoberto o túmulo de Jesus vazio? Não importa. O túmulo foi de fato descoberto vazio? Não importa. Se foi descoberto, terá sido porque alguém retirou o cadáver e o escondeu ou porque Jesus foi ressuscitado? Não importa. O que importa é que os discípulos realmente vieram a acreditar na ressurreição – ou porque houve a ressurreição (pouco provável), ou porque por alguma razão vieram a acreditar que houve uma ressurreição que de fato não houve, ou porque forjaram a história toda. Foi a história que os apóstolos contaram que se tornou responsável pela origem do Cristianismo.

Dito isso, a doutrina da justificação pela fé é verdadeira? A resposta, seguindo o tom, é que não importa. O que importa é que as pessoas acreditem que seus pecados são perdoados e que elas, por conseguinte, estão justificadas (etc. salvas, por exemplo), simplesmente por um gesto e uma atitude: o de se reconhecerem pecadoras e pedirem, a Deus, perdão pelos seus pecados, em nome de Jesus. Para os protestantes, não é preciso nem que o pastor diga “os seus pecados estão perdoados”. Basta orar, e, na oração, confessar e pedir perdão – e o perdão é “sentido”, “experienciado”. E as pessoas passam a viver sem um fardo enorme de culpa… Lutero, haja vista. Sentia-se o pior dos pecadores, vivia em agonia, até que um dia, lendo Paulo, descobriu que ele não tinha de fazer nada para ser perdoado de seus pecados e salvo: isso se dava pela graça. Ele só tinha de acreditar, ter fé, aceitar o dom da graça. Pela graça, mediante a fé. Talvez o cerne da mensagem de Paulo, Agostinho, Lutero e Calvino. Da mensagem evangélica. Nenhuma das vidas historicamente transformadas dessa forma deixaria de ter sido transformada se Jesus não ressuscitou, ou mesmo não morreu na cruz, ou mesmo nem sequer existiu.

A doutrina da eleição pode ter uma análise semelhante. Deus elegeu primeiramente os judeus? Depois aqueles que ele previu que teriam fé na mensagem cristã (numa interpretação mais benigna da eleição)? [A interpretação menos benigna é a de que Deus escolheu quem quis e, em sua soberania, não tem de dar satisfação a ninguém acerca disso.] Mas os fatos históricos (ou metafísicos) envolvidos não importam. O que importa é que uma nação que se acredita escolhida por Deus, ou uma pessoa que se considera eleita de Deus, vivem de forma claramente diferente do que viveriam se não acreditassem nisso. E o importante é o como elas vivem, uma vez que acreditem. Seriam os Estados Unidos a nação que é se seus fundadores não tivessem acreditado que era uma nação escolhida, uma cidade construída em um monte, para fazer a vontade de Deus (ainda que tudo isso seja história contada, talvez inventada, não história de fato acontecida)?

Por fim, a providência. Eu vou atravessar a rua e, já meio velhinho, com vista ruim, com reumatismo, sem muita agilidade, um carro quase me pega – passa raspando, em alta velocidade. Sorte ou milagre providencial? Qualquer uma das duas possibilidades que eu possa vir a aceitar não faz a menor diferença para o que de fato aconteceu. Mas, pode ser, que se eu acreditar que fui salvo pela providência divina, que Deus salvou a minha vida, me livrou da morte, eu vá viver o resto dos meus anos de forma diferente do que se eu acreditar que foi “apenasmente” sorte…

Daqui dez dias, por aí (estamos em Fevereiro, mês de 28 dias), fará 15 anos que tive um infarto agudo do miocárdio. Foi em 1 de Março de 2002. Poderia ter morrido. Tanta gente morre de repente de infarto, que se mostra fulminante, por que não eu? Eu tinha 58 anos. Era relativamente novo para morrer assim, mas muita gente morre bem mais cedo fulminado por esses acontecimentos que antes eram chamados de síncope cardíaca. Sempre tive muita sorte na vida, será que foi uma outra manifestação da Fada Fortuna, como as anteriores? Ou será que esta, e quem sabe as anteriores, não foram obras da providência divina que queria me preservar, digamos, para ainda escrever estas mal traçadas? Ou para um dia, dois anos e pouco depois, encontrar a Paloma?

Saber mesmo a gente nunca vai. Mas vai fazer diferença o que a gente tende a acreditar, mesmo com alguma dúvida, mesmo sem ter certeza… Depois do acontecido eu me tornei uma pessoa diferente, até de maneiras bem chinfrins, como, por exemplo, dirigindo mais devagar e com maior tranquilidade, procurando me estressar menos, etc. Consegui muito, mas ainda tenho muito a conseguir nesse aspecto de gerenciamento de estresse, de me deixar de me irritar pelo que não vale a pena, de não brigar com os idiotas atendentes de call center que respondem a nossas chamadas de reclamação… E há outras mudanças ainda mais importantes.

Enfim… Hoje sou professor de História da Igreja. No fundo acredito que haja “bruta facta”, fatos brutos, e que é possível conhecer alguns deles. Talvez nunca um fato totalmente pelado, desvestido de toda interpretação. Mas é a narrativa histórica, verdadeira ou não, que explica o que aconteceu depois. Há documento famoso na História da Igreja chamado de “A Doação de Constantino”. Supostamente escrito pelo Imperador Constantino, que se converteu ao Cristianismo, tornou o Cristianismo uma religião lícita, convocou e presidiu o Primeiro Concílio Ecumênico do Cristianismo, construiu uma nova cidade, Constantinopla, e para lá transferiu a capital do Império Romano, deixando Roma a ver navios, e que morreu em 337. Tudo isso na primeira metade do século III. O documento em questão teria sido escrito por Constantino, e nele ele teria doado ao Bispo de Roma seus palácios, suas terras, etc. ao se mudar para Constantinopla. Esse documento apareceu algum tempo muito depois da morte de Constantino, numa época em que as técnicas de avaliação da fidedignidade dos documentos era muito primitiva e precária. Hoje a maior parte dos entendidos diz que esse documento foi forjado lá pelo século VIII. No entanto, por séculos depois de sua descoberta, as pessoas acreditaram que o documento era verdadeiro e se conformaram com o fato de que o Papa, em nome da igreja, havia se tornado senhor de tantas terras e tantos palácios magníficos… Forjado, portanto não verdadeiro, o documento surtiu os efeitos desejados por muitos séculos, mesmo depois que seu forjamento havia sido descoberto.

É isso. Coisas pra incomodar a cuca neste domingo que chega – que chega, volta a ser sábado, e dali uma hora se torna domingo de novo (por causa do fim do Horário de Verão).

Em Salto, 18 de Fevereiro de 2017.

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Razão e Fé

[Este artigo é literalmente uma nota de rodapé (elas costumam ser longas) a um trecho de um livrinho que estou escrevendo sobre a História da Igreja Primitiva (até aD 476). É uma história diferente, menos cheia de fatos e mais cheia de elucubrações filosóficas. Em relação à questão que dá título ao que, aqui, é apenas um artiguete, posso dizer que, desde que entrei no Seminário, em Fevereiro de 1964, e ali vim a fazer uma disciplina de Introdução à Filosofia, com o Rev. Francisco Penha Alves, venho lutando com ela. Vai fazer 53 anos no início do ano que vem (que está perto). Foi esta questão que, em Maio de 1970, quando ganhei uma bolsa para fazer o meu Ph.D. na Universidade de Pittsburgh a partir de Setembro, me fez optar por me concentrar em Filosofia e não em História – embora eu tenha de certo modo juntado as duas áreas escrevendo minha dissertação sobre um tópico do ponto de vista da História da Filosofia… EC – 20161116]

o O o

Inspirado em Tomás de Aquino (1225-1274), Blaise Pascal (1623-1662), John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776), William James (1842-1910), William Kingdon Clifford (1845-1879), Karl Popper (1992-1994) e William Warren Bartley III (1934-1990), este, orientando de Popper e meu orientador de Doutorado, que, a meu ver, deram a esta questão formulações que só podem ser chamadas de clássicas, eu me arriscaria a dizer, depois de ter refletido sobre ela por mais de cinquenta anos, tendo mudado de ponto de vista algumas vezes, QUE, quanto às credenciais epistêmicas dos enunciados, nossa atitude para com eles pode ser classificada como:

  • Racional (secundum rationem),
  • Irracional (contra rationem), ou
  • Suprarracional (supra rationem).

(A) SE existe evidência adequada A FAVOR DE um enunciado, a atitude racional para com o enunciado é assentir intelectualmente a ele com base na convicção racional produzida pela evidência. Neste caso, a atitude racional nos obriga a não “desassentir” intelectualmente do enunciado (se é que posso inventar esse neologismo, “desassentir (de)”, que significa “não assentir (a)”). Desassentir intelectualmente dele, neste caso, seria, portanto, assumir, em relação a ele, uma atitude irracional.

(B) SE existe evidência adequada CONTRA um enunciado, a atitude racional para com o enunciado é desassentir intelectualmente dele com base na convicção racional produzida pela evidência. Neste caso, a atitude racional nos obriga a desassentir intelectualmente do enunciado. Assentir a ele, neste caso, seria, portanto, assumir, em relação a ele, uma atitude irracional.

(C) SE, porém, NÃO existe evidência adequada A FAVOR de um enunciado, mas também NÃO existe evidência adequada CONTRA ele, a atitude racional para com ele é suspender juízo em relação ao enunciado (isto é, não assentir intelectualmente a ele nem desassentir dele, com base em convicção racional, por não haver evidência adequada nem a favor dele, nem contra ele), MAS não é uma atitude irracional, em relação a esse enunciado, assentir intelectualmente a ele como objeto de fé (posto que não há evidência adequada contra ele).

(D) ASSIM, os enunciados que podem ser objeto de fé são aqueles (a) em relação aos quais a gente NÃO é racionalmente OBRIGADO, intelectualmente, com base em suas credenciais epistêmicas, nem a assentir, nem a desassentir, (b) MAS em relação aos quais PODE, intelectualmente, com base em considerações não epistêmicas, assentir.  A fé, assim, não é racional, mas, nessas condições, também não é irracional.

Em Salto, 16 de Novembro de 2016