Dogma, Doutrina e Opinião na Área da Teologia

O que me motivou a escrever este artigo (na realidade, um artiguete) foi o livro The Genesis of Doctrine, de Alister E. McGrath (1990). Estou começando a escrever o artigo à meia-noite entre o dia 14 e o dia 15.1.2020. McGrath só me motivou. Não é culpado de qualquer besteira que eu possa perpetrar ao escrever o que me veio à teia.

O que eu sempre quis ser na vida, desde que comecei a estudar teologia (cristã, especialmente protestante, especialmente calvinista) em 1964, cinquenta e seis anos atrás, foi ser especialista na área de História da Doutrina. O fato de haver, dentro da igreja cristã, historiadores, como Adolf von Harnack, que denominam a área que me interessa como História do Dogma (Dogmengeschichte, History of Dogma), e historiadores, como Arthur Cushman McGiffert, que denominam a área que me interessa como História do Pensamento Cristão (History of Christian Thought), que é equivalente a História da Opinião Cristã, prova que há necessidade de definir os termos com maior precisão e clareza. Indo do que me parece mais amplo para o que me parece mais estreito, o que me interessa é a História do Pensamento (Opinião), a História da Doutrina ou a História do Dogma dentro do Cristianismo? E no que exatamente consiste a Teologia Cristã, que, por vezes, é classificada em Teologia Histórica (que parece ser a mesma coisa que História da Teologia), Teologia Sistemática (que parece ser a Teologia propriamente dita, sistematizada em um determinado momento da História da Igreja), e Teologia Prática (que parece ser a aplicação da Teologia – Sistemática e Histórica? – a problemas de ordem mais prática relacionados à vida cristã)?

Como afirmei atrás, parece que a expressão História do Pensamento Cristão é a mais ampla das três. Ela inclui a história de tudo que é pensado, dito e registrado no âmbito da História da Igreja Cristã, desde que ela foi fundada – inclusive a discussão sobre quando é, exatamente, que ela, a igreja, e o pensamento que lhe é afeto, tiveram início – como algo claramente diferenciado, digamos, do Judaísmo e do pensamento judaico. Inclui também a questão de quem foi que a fundou, se Jesus, se Pedro ou se Paulo – uma questão que tem sido mais importante para os católicos do que para os ortodoxos e protestantes. De qualquer forma, a expressão História do Pensamento Cristão parece claramente incluir cartas de apóstolos e bispos à suas igrejas, como, no caso de bispos, a Epístola de Clemente de Roma, livros escritos (canônicos, apócrifos e outros), decisões conclaves de bispos e congressos ecumênicos, bulas e encíclicas papais, credos, confissões, etc. Tudo isso me parece ser parte do pensamento cristão – até mesmo aquelas ideias consideradas divergentes (as heresias) das visões predominantes (a ortodoxia).

(Uma curiosidade: verdade, sobre um determinado assunto ou fato, parece poder haver apenas uma, aquela versão que corresponde com a realidade. Mas falsidades ou mentiras parece pode haver em número ilimitado. Da mesma forma, ortodoxia, o ponto de vista correto, parece poder haver apenas uma, enquanto heresias parece poder haver em número ilimitado. Mas provavelmente os relativistas  e os que se dizem pós-modernos, que me parecem ser relativistas, vão discordar de mim, pelo menos quanto ao caráter único da verdade e da ortodoxia.)

 Se a expressão História do Pensamento Cristã é a mais ampla, qual é a expressão menos ampla ou mais restrita? Tudo parece indicar que seja a História do Dogma. No entanto, aqui aparece uma dificuldade: o que é um dogma? Uma resposta simples, que se apresenta de pronto, é que um dogma é uma doutrina que foi oficialmente declarada verdadeira e mandatória por quem de direito dentro da Igreja Cristã. E isso torna difícil discutir os dogmas antes de discutir as doutrinas.

Doutrinas parecem ser parte do pensamento cristão que alcançaram, com base em alguma razão ou consideração, um status especial – embora esse status não seja não fundamental quanto aquele dos dogmas. A questão é qual seria o status especial da doutrina, que um mero pensamento cristão (a opinião de um teólogo, digamos) não tem e que um dogma parece ter em maior grau?

Minha primeira sugestão é que uma doutrina é uma categoria que contém pensamentos, pontos de vista, opiniões acerca de um tema ou tópico que foi considerado suficientemente importante para ser, digamos, individuado, isto é, separado de outros temas ou tópicos de grau de importância equivalente. Assim há a doutrina de Deus (Pai), que pode incluir as doutrinas de menor escopo da natureza de Deus, do conhecimento de Deus (revelação, razão, etc.), da criação, da providência, etc.; há a doutrina do Homem (Antropologia), que pode incluir as doutrinas de menor escopo da origem do homem, do livre arbítrio, da queda, do pecado, do plano redentor de Deus, etc.; há a doutrina de Deus (Filho), que pode incluir as doutrinas de menor escopo da natureza Jesus Cristo, de sua obra redentora, de sua morte, ressurreição e ascensão aos céus, de sua segunda vinda, da regeneração, da graça, da fé e das obras, etc.; há a doutrina de Deus (Espírito), que pode incluir as doutrinas de menor escopo dos dons do Espírito, da santificação, etc.; há a doutrina da igreja; há a doutrina do fim dos tempos; etc.

Parece necessário que uma Teologia Sistemática digna do nome aborde pelo menos essas doutrinas. Algumas Teologias Sistemáticas o fazem, como a de Charles Hodge. Outras vão bem além, como o conjunto das duas Summae de Tomás de Aquino e a Dogmática de Karl Barth. Ainda outras ficam aquém.

O que é importante aqui é o seguinte. Tomemos a doutrina do Conhecimento de Deus. Como é que o ser humano adquire conhecimento acerca da existência de Deus, de sua natureza, de sua vontade, de seus planos e ações, etc? Tudo isso faz parte da doutrina de Deus (Pai), e, dentro dela, da (sub-)doutrina do Conhecimento de Deus. Até aqui estamos falando de categorias. Mas e o conteúdo dessa doutrina? A doutrina de Barth e a de (até certo ponto seu amigo) Emil Brunner diferiram seriamente em relação à questão da chamada Teologia Natural. Se Barth discordava de Brunner, quanto mais não discordaria de Aquino, que escreveu toda uma Summa de teologia natural, a  Summa Contra Gentiles? Diante dessas discordâncias entre teólogos de primeira linha – e nem estou incluindo Friedrich Schleiermacher aqui – qual é a doutrina cristã, ou protestante, ou calvinista do conhecimento de Deus? Se ficarmos no nível dos pontos de vista dos diferentes autores, não temos uma doutrina do conhecimento de Deus: temos várias, e conflitantes entre si.

A solução seria deixar os teólogos isolados de lado e concentrar nas diversas confissões: Westminster, por exemplo. Mas há diversas confissões – e elas não concordam totalmente. Afinal das contas, parece difícil dizer que haja uma doutrina cristã, ou protestante, ou reformada do conhecimento de Deus, mesmo se focarmos as confissões e não os teólogos de per si.

Se é difícil definir a doutrina cristã do conhecimento de Deus (querem algo mais básico do que isso?), mais difícil ainda é falar em dogma cristão do conhecimento de Deus – a menos que se afirme que, para os católicos mais tradicionais, o conhecimento mais do que em duas vias, na verdade em três, defendido por Tomás de Aquino, que fala em conhecimento natural, revelado e místico, seja um dogma.

Em relação a outras doutrinas, há dogmas inquestionáveis (mesmo que não aceitos universalmente). Que Jesus Cristo tenha duas naturezas, uma humana e outra divina, sendo plenamente homem e plenamente Deus, mas que, apesar disso, é uma só pessoa (que é a segunda pessoa da Trindade), e que suas duas naturezas, embora integradas numa só pessoa, não se confundem nem se misturam, parece-me ser o dogma por excelência legado pelo Cristianismo antigo (através dos Concílios de Nicea, em 325, e de Calcedônia, em 451), que nem os reformadores protestantes ousaram questionar. (Na verdade, Michel Serveto foi queimado em Genebra por não aceitar esse dogma que, então, quando ele foi morto, em 27.10.1553, tinha mais de mil anos).

Pelágio foi perseguido por Agostinho, condenado em concílios aconchavados para votar contra ele, teve de fugir para não perder a vida. Na reforma alemã, os luteranos acham que Lutero ganhou o debate com Erasmo. Os calvinistas acham que Armínio também perdeu na Holanda. E, no entanto, hoje, a maior parte dos cristãos está do lado dos supostos perdedores… Qual é a doutrina cristã nessa questão? Faz sentido cogitar de um dogma, apesar do fato de que alguns concílios antigos condenaram Pelágio e aprovaram o ponto de vista de Agostinho?

Toda essa situação recomenda cautela e tolerância. Para os mais arrojados, essa situação aponta para um futuro desconfessionalizado, desortodoxizado, em que há inúmeros pontos de vista e versões ou propostas de doutrina mas nenhuma dela é capaz de heretizar algum, quanto mais cortar a sua cabeça ou queimá-lo na fogueira.

Em Salto, 16 de Janeiro de 2020.

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