Família, Casamento e Sexo (na Visão do Cristianismo, em Perspectiva Histórica)

1. Introdução

Coloco no título deste artigo três termos que apontam para três conceitos relativamente importantes, tanto historicamente como no presente, em várias áreas de investigação, ou investigação: sociologia, antropologia, psicologia, filosofia (ética), biologia social, etc. – e, naturalmente, na teologia. Vou tentar abordá-los de forma transdisciplinar, i.e., sem maior preocupação com a forma em que cada uma dessas disciplinas os trataria. Mas meu interesse está na discussão se haveria uma “visão bíblica”, ou uma “visão cristã”, oficial, mandatória, desses três conceitos. Meu tratamento da questão certamente vai parecer superficial (e até mesmo errôneo) ao especialista (inclusive ao exegeta bíblico e ao teólogo) – mas esse é o preço que estou acostumado a pagar por ser um generalista convicto.

À pessoa comum, não viciada por especialidades acadêmicas, a relação entre os três conceitos pode parecer óbvia e evidente: em condições normais, em sociedades razoavelmente tradicionais e/ou conservadoras, famílias são constituídas por casamentos e sexo é admissível apenas em um relacionamento “gâmico”, isto é, confinado ao casamento. A essa pessoa comum que estou imaginando, uma família, no sentido mais estrito do termo, aquele em que ela é geralmente qualificada como nuclear, é constituída por um homem e uma mulher casados (um com o outro) – e, naturalmente, por seus filhos, gerados em seu relacionamento sexual lícito, isto é, confinado aos limites do matrimônio. (Só muito recentemente, em sociedades mais liberais, como a nossa, atual, aqui no Brasil, filhos ditos naturais, i.e., nascidos fora do casamento e, em alguns casos, tecnicamente adulterinos, começam a ser vistos, até mesmo pelo Direito, como parte normal da família, em igual condição com os filhos ditos legítimos (até mesmo no processo de sucessão/herança). O mesmo se dá em relação à companheira, antigamente chamada de concubina, em relação à mulher dita legítima da qual o marido está separado de fato – ou mesmo sem que isso aconteça!)

2. A Visão do Velho Testamento

Mesmo a pessoa comum que estou imaginando, porém, desde que seja minimamente bem informada, não ignorará um certo número de fatos que apontam para além ou para fora desse entendimento. Ela saberá, por exemplo, que, antigamente, ou, se ela conhece bem a Bíblia, desde os primórdios da história da humanidade, as coisas não eram bem assim. É verdade que ela apontará para o fato de que a Bíblia, em seu relato da criação, assinala que:

  • Deus criou o homem e a mulher [1];
  • Deus determinou que eles fossem “fecundos”, se “multiplicassem”, e “enchessem a terra” (o que implica sexo) [2].

Curioso que, embora cristãos (especialmente os evangélicos conservadores da atualidade) façam frequentes referências à família, e até à “primeira família” [3], os dois primeiros capítulos de Gênesis omitem totalmente qualquer referência ao conceito de família, da mesma forma que omitem o conceito de casamento [4], falando apenas em homem, mulher e (implicitamente) em sexo (para fim procriativo).

Na verdade, já que estou fazendo referência a Gênesis, há certas questões, geralmente levantadas por incréus e céticos, que incomodam os evangélicos conservadores:

  • Se o relato bíblico é verdadeiro, e a raça humana começou com um só casal, Adão e Eva, Caim, filho dos dois, e assassino de seu irmão, Abel, deve ter gerado sua prole (que a Bíblia admite que ele teve) de forma incestuosa, pois ele só pode tê-la gerado com uma irmã (de pai e mãe) ou com a própria mãe (algo que me parece muito pior);
  • Quando a Bíblia começa a falar em família, ela o faz em termos de uma família patriarcal, em que um pater familias (em regra com mais de uma mulher, em geral com uma oficial e outras oficiosas, consentidas ou mesmo arrumadas pela oficial – algo geralmente chamado de poliginia) comanda um clã composto não só por suas mulheres e seus filhos (incluindo, em posição secundária, as filhas, embora essas, quando casadas, passassem a pertencer a outro clã), mas também por noras, às vezes genros, netos, às vezes irmãos, sobrinhos, primos, etc. – algo muito distante da chamada “família nuclear” que se defende hoje);
  • O Velho Testamento admite o divórcio (mais precisamente: o repúdio da mulher por parte do homem – não vice-versa, a noção de adultério masculino sendo meio deixada de lado por causa da poliginia) em alguns casos específicos, e, além disso, também não proíbe a união posterior de um divorciado com uma outra mulher, ou seja, aceita também a poliginia sequencial e não apenas a simultânea ou concorrente.

3. A Visão do Novo Testamento

Isso dito, passemos ao Novo Testamento.

Ali Jesus demonstra ser mais condescendente do que os demais judeus em relação ao adultério, ou ao casamento em série, e afirma que o Velho Testamento admitiu o divórcio por causa da natureza humana (pelo menos a contaminada pela “queda”). De certo modo, Jesus relativiza, ao aparentemente radicalizar, o adultério, afirmando que mesmo o “adultério mental” seria adultério de fato, tão problemático quanto o real. (Jimmy Carter, um cristão conservador “nascido de novo”, admitiu, em entrevista à revista Playboy, ter cometido “adultério mental”). O Novo Testamento também fala explicitamente em noivado (“prometimento”), casamento (bodas), etc. A Igreja Católica afirma que Jesus “sacramentou” o casamento por ter realizado numa festa de casamento o seu primeiro milagre (transformar a água em vinho – milagre esse pelo qual eu tenho especial simpatia).

Mas passemos a Paulo. Em suas epístolas, em especial na primeira carta aos Coríntios, Paulo chega às raias do escolasticismo ao discutir família, casamento e sexo.

Paulo, no meu entender, afirma as seguintes teses, que, de certo modo, condicionam todo o ponto de vista cristão posterior:

  • O asceticismo sexual (abstinência sexual total) é preferível a uma vida de que o sexo faça parte, mesmo que seja uma vida matrimonial regularmente estabelecida;
  • Nem todo mundo consegue viver de forma totalmente asceta (abstinente) no tocante ao sexo (isto é, ficar sem “fornicar” e sem casar);
  • O casamento foi instituído (mais ou menos como o divórcio, na opinião de Jesus), por causa da natureza humana (pelo menos a contaminada pela queda), para legitimar a prática do sexo, que seria legítima quando realizada entre casados (entre si, naturalmente) – apesar da superioridade do asceticismo ou abstinência sexual total;
  • No entanto, Paulo enfatiza, mais de uma vez, que é preferível não casar a casar (pois o sexo, mesmo quando legítimo, é, no mínimo, uma distração indefensável diante da necessidade de evangelizar o mundo e o iminente fim desse mundo);
  • Sexo fora do casamento (mesmo antes e depois) é sempre ilegítimo e deve ser caracterizado como o pecado da “fornicação” (se envolve apenas pessoas não casadas) ou do “adultério” (se pelo menos um envolvido é casado com outra pessoa);
  • Pode haver, entre cristãos casados, separação (em caso de adultério ou abandono), mas não divórcio, e os separados não podem casar de novo ou manter relações sexuais com outros parceiros (seria adultério), só tendo a opção, caso desejem manter relações sexuais, de reatar com o cônjuge de que se separaram;
  • O casamento de uma pessoa cristã com uma pessoa não-cristã (o chamado “jugo desigual”) não é um casamento real ou perfeito, porque, se a pessoa não-cristã se separa, a pessoa cristã, assim abandonada pela não cristã, pode se casar de novo;
  • Relações sexuais homossexuais não são admitidas em hipótese alguma e, muito menos, alguma forma de “casamento” entre eles, nem sequer se admitindo a hipótese de que um deles seja cristão, ou mesmo que ambos o sejam (porque a principal, quiçá única, finalidade do casamento é a procriação);
  • (Mais implícito do que explícito), a família cristã é constituída pelo casamento (entre cristãos, naturalmente) e é composta pelo marido, o cabeça do casal e chefe da família, a mulher e os filhos (mulher e filhos sendo sujeitos e obedientes ao marido e pai).

Em suma: Paulo é, dentro do Novo Testamento, o responsável pelo legalismo casuísta que sempre dominou a visão cristã da família, do casamento e do sexo – e pela visão negativa do sexo e do próprio casamento (porque amarrou um ao outro). Esse fato causou sérios problemas aos pensadores cristãos posteriores, em especial Agostinho, como veremos (ainda que meio por cima).

4. A Visão da História da Igreja

A Igreja Católica Romana seguiu quase à risca a doutrina paulina – com algumas ênfases especiais (com as quais, imagino, Paulo, se consultado, claramente estaria de acordo), propostas especialmente pelos Pais da Igreja, em especial os latinos: Tertuliano, Jerônimo e Agostinho.

Resumo a doutrina católica nos seguintes itens:

  • Virgindade, asceticismo e abstinência total, são, no tocante ao sexo, o estado indubitavelmente preferido, como prova a exigência (teórica, não necessariamente prática) de que padres, bispos, monges, freiras, papas, etc. sejam celibatários; se tiveram uma vida sexual ou matrimonial anterior, devem se abster totalmente de qualquer atividade sexual depois de assumir seu ofício;
  • O casamento foi instituído por Deus e sacramentado por Jesus (no milagre de Caná da Galileia) para legitimar o sexo em sua função procriativa, para aqueles que não conseguem se manter puros, sendo (o casamento) indissolúvel e não devendo ser usado exclusivamente para legitimar o prazer do sexo e para cimentar o companheirismo (razão pela qual métodos anticoncepcionais “não naturais” não são admissíveis, só se admitindo, como método anticoncepcional, entre os casados, a abstinência sexual temporária e, talvez, o coitus interruptus) [5]  [6];
  • Sexo antes ou depois do casamento, ou de qualquer maneira fora dele, é ilegítimo – sendo ilegítimo mesmo dentro do casamento, se acompanhado de “concupiscência” (leia-se tesão, prazer), Jerônimo chegando a afirmar que o marido que ama sua mulher demais comete adultério quando com ela mantém com ela relações sexuais;
  • A doutrina católica não admite o casamento “misto”, isto é, com não católicos (e muito menos com não cristãos);
  • Embora a doutrina católica não admita o sexo por prazer e mero companheirismo, a Igreja Católica, talvez de forma meio dividida, tentou promover uma visão do casamento em que, apesar de o sexo ser dever conjugal (isto é, obrigação do casal), o casamento, em seus aspectos não-sexuais, se alicerça no companheirismo, nos prazeres puros e simples da vida, na amizade cristã, para que nenhum dos parceiros se sinta estimulado a buscar companheirismo ou prazer fora do casamento (como acontece nos casamentos “negociados”), assim aumentando o risco de adultério (mesmo depois de uma separação ou mesmo de divórcio, onde admitido, um novo relacionamento sexual ou mesmo um novo casamento será sempre considerado adulterino, pelo menos enquanto o ex-cônjuge viver);
  • Sendo o casamento católico indissolúvel, não pode haver divórcio, mas apenas anulação ou separação de fato, a primeira admitindo um casamento subsequente, a segunda, não, porque o vínculo conjugal continua e ele é sempre indissolúvel;
  • Relacionamentos sexuais com pessoas do mesmo sexo, ainda que se concentrem mais no periférico ou assessório do que no central ou essencial (isto é, ainda que não envolvam propriamente o coito) são inadmissíveis;
  • A família, em sentido estrito (nuclear), é composta pelo marido, pela mulher e pelos filhos que porventura tenham, e ela deve ser preservada contra ataques de qualquer forma, diretos ou indiretos;
  • Por isso, combatem-se a poligamia (poliginia, poliandria), o divórcio, a homossexualidade, o sexo fora do casamento (ainda que entre solteiros), a prostituição, etc., além, naturalmente, de casamentos consanguíneos e outras formas não-consanguíneas de incesto – e até mesmo a leitura (ou, pior, escrita) de pornografia.

5. Conclusão (Temporária)

É mais ou menos isto que eu queria dizer neste primeiro artigo sobre o assunto (outros virão). Como disse atrás, a discussão foi razoavelmente superficial, mas clara, para alimentar discussão. Não comprovei uma série de afirmações, embora possa comprovar, “on demand”, a maior parte delas. E passei por cima de distinções mais sofisticadas.

Também não discuti a visão protestante da família, do casamento e do sexo, porque, exceto por deixar de lado a sacramentalidade do casamento, por admitir que o clero possa se casar, e por admitir o divórcio (vide até mesmo a conservadora Confissão de Fé de Westminster), no resto difere pouco da visão católica. Na minha modesta opinião, naturalmente. Vide, por exemplo, os Puritanos.

Cristãos protestantes liberais, porém, nos últimos tempos (150 anos, mais ou menos), são quase que unanimemente favoráveis ao divórcio e a novos casamentos, bem como a relacionamentos sexuais fora do casamento por parte de pessoas solteiras, divorciadas ou viúvas, irrespectivamente de seu sexo (essa tendência sendo bem mais recente). Muitos deles (protestantes liberais) também são favoráveis a uma noção estendida de família que aceita como família os relacionamentos estáveis, inclusive homossexuais, em cujo caso nada obstaria a realização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

6. Notas

[1] Se Deus criou primeiro o homem e depois a mulher, ou os dois ao mesmo tempo, é, para esse tipo de “pessoa comum”, em geral indiferente, sendo apenas uma questão de exegese de Gênesis 1 e de Gênesis 2. Gênesis 1:26-27 afirma que “… disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. . . . Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. O texto aqui parece sugerir que os dois foram criados ao mesmo tempo, sem maiores firulas. Gênesis 2, porém, narra a criação, primeiro do homem (2:4-17), depois da mulher (2:18-25), e acrescenta alguns detalhes curiosos sobre como eles foram criados (o homem do pó da terra, a mulher da costela do homem, etc.).

[2] Vide Gênesis 1:28. Gênesis 2:24 contém este muito explorado versículo: “Por isso deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne” (versículo literalmente citado em Efésios). O versículo seguinte, num aparente non sequitur, observa que os dois “estavam nus, e não se envergonhavam”. (O non sequitur é eliminado se a gente se lembrar que, para tornar-se “uma só carne”, o casal em geral prefere ficar pelado). Também há um aparentemente anacronismo em falar em deixar pai e mãe exatamente quando se mencionam pessoas que não tiveram nem um, nem outro, mas deixemos isso para lá.

[3] A “primeira família” seria aquela de Adão e Eva, naturalmente e seus filhos (um dos quais, um assassino fratricida). Há um certo sentido em que cristãos poderiam desejar chamar a família de Jesus a “primeira família” – mas a questão é complicada, não só porque José não é considerado o pai verdadeiro (biológico) de Jesus (apesar de o Novo Testamento se referir a ele, em mais de um lugar, como o pai de Jesus, sem qualquer qualificativo).

[4] Rubem Alves, com seu jeito pitoresco e não raro irreverente de dizer as coisas, afirma o seguinte: “No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembleia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: ‘E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar…’”. Fico imaginando a cena… Vide sua crônica “Sobre Casamento”, transcrita em “Rubem Alves | Blog Não-Oficial”, no URL https://rubemalves.wordpress.com/2008/04/16/rubem-alves-sobre-casamento/. O texto foi originalmente publicado na Folha de S. Paulo de 20 de março de 2007, com o título de “A Praga”, a propósito de uma afirmação do Papa Bento XVI (tinha de ser ele) de que “o segundo casamento é uma praga”. Vide http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2003200706.htm/. [Em decorrência dessa observação papal, e à despeito da refutação que dela fez o meu caro amigo, hoje falecido, decidi, no ano seguinte, por via das dúvidas, terminar com o meu segundo casamento e partir para o terceiro. 🙂 ]

[5] A Igreja Católica Romana mais tradicional não admite sequer que um casal legitimamente casado tenha relações sexuais apenas pelo prazer que elas proporcionam. Para ela, a finalidade do sexo é procriar, ponto final – razão pela qual os mais tradicionais se opõem até mesmo ao recurso ao coitus interruptus como método anticoncepcional. As chamadas “carícias preliminares” também são desincentivadas por esses católicas mais tradicionais. Elas só devem ser usadas na justa medida necessária para viabilizar o ato sexual procriativo. Agostinho se esforçou por encontrar alguma alternativa a elas, mas há consenso de que não foi bem sucedido. [Acrescentado em 3/12/2015: Vide, abaixo, Post Scriptum 2 de 2/12/2015].

[6] Depois de haver concluído o artigo básico encontrei, escondido em minha biblioteca aqui no sítio, um livro, que devo ter adquirido por volta de 1967 ou 1968, que, lendo apenas agora, achei fantástico: The Natural History of Love, de Morton M. Hunt (Minerva Press, 1959). Depois de  uma breve introdução, no capítulo 1, e da discussão, nos capítulos 2 e 3, “[d]a história natural do amor” na Grécia e na Roma pagã, respectivamente, o autor o discute essa história, no quarto capítulo, durante os cinco ou seis séculos iniciais do Cristianismo. Ele discute dois movimentos sobre os quais quase nada se fala nos textos regulares de História da Igreja: o chamado “casamento continente” (isto é, “sem incontinência” ou sem descontrole) e o chamado “casamento espiritual”. No primeiro caso, trata-se de um casamento mesmo, em que dois cristãos, ambos virgens, resolviam casar e, no ato do casamento, celebravam também um “pacto de castidade” – total. Em tudo o mais, eram casados, menos em relação ao sexo. A prática aparentemente foi instituída por um cidadão chamado Amon e sua noiva, cujo nome não é fornecido. No segundo caso, não se trata de uma casamento real, mas de algo que pretendia caracterizar o relacionamento entre um homem e uma mulher castos como “casamento espiritual”. Os casados “espiritualmente”, neste caso, eram um ocupante do clero (padre e até mesmo bispo) e a virgem (denominada “agapeta” – termo derivado da palavra grega “agape” que designa amor não erótico) que lhe prestava serviços domésticos, morava em sua casa, e, pelo que consta, até mesmo compartilhava a sua cama – mas de forma totalmente casta. Isso era visto pelo padre ou bispo como uma forma de fortalecer o espírito contra tentações… Dentro do monasticismo, há relatos de casas masculinas e femininas que se uniram, os irmãos e as irmãs praticando essa forma arriscada de fortalecimento do espírito contra a carne. Bispos mais realistas e de mais bom senso oportunamente conseguiram que essa prática fosse declarada herética – mas ela custou para desaparecer. Conta o livro que, depois da condenação da prática, um padre que prezava muito a companhia de sua “agapeta” optou por castrar-se a ter de se livrar da companheira. Outros, porém, menos corajosos, venderam suas virgens como escravas – comportamento que hoje parece menos cristão do que aquele que ele procurava solucionar. Todas as referências foram retiradas do capítulo 4 da fonte citada – que é um tesouro de informações interessantes, raramente contidas em outros textos de História da Igreja.

7. Post Scripta

A. POST SCRIPTUM 1 DE 2/12/2015

Como assinalo acima, sempre considerei Paulo o grande culpado pela visão negativa do casamento e do sexo que o Cristianismo carregou consigo ao longo de seus dois milênios de existência. Paulo não tem como negar que o sexo é uma realidade da vida humana (e animal) sem a qual basicamente acaba a vida humana (e animal) na face da terra. Além disso, há, para os que levam a sério a história da Criação em Gênesis, o mandamento do versículo 28 do primeiro capítulo, que na Bíblia de Genebra (2a edição) é traduzido como “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a”. (Na NTLH o versículo é traduzido como: “Tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem”.) Além disso, a natureza humana (pelo menos depois da queda) é tal que o sexo é uma força potente a condicionar a ação das pessoas. Paulo parece ser um asceta – solteiro virgem ou viúvo abstinente depois da viuvez. “Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou”, afirma na primeira carta aos Coríntios (7:7 – 2a edição da Bíblia de Genebra). Mas é suficientemente realista para concluir que poucos serão como ele (nem todos têm “esse dom” de asceticismo e abstinência sexual). Admite, assim, o sexo, desde que canalizado e disciplinado dentro do casamento. Para aqueles que “não se domin[a]m”, afirma, “que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado” (7:9, mesma edição; na NTLH: “Se vocês não podem dominar o desejo sexual, então casem, pois é melhor casar do que ficar queimando de desejo”).

O casamento, assim, é visto por Paulo como o único canal legítimo para o sexo – mas o casamento é apenas para “os fracos”, aqueles que não conseguem controlar seu desejo sexual. Muito melhor seria se todos fossem como ele, que imodestamente se coloca como modelo, e se mantivessem virgens, ou, se viúvos, abstinentes sexuais.

Paulo, porém, assume uma posição que alguns Pais da Igreja, em especial Agostinho, vão rejeitar, como se verá adiante (no Post Scriptum seguinte). Ele afirma que, uma vez casados, nenhum dos cônjuges deve negar sexo ao outro, quando (e sempre que) o outro quiser (mulheres cristãs, atentai!). Essa é a norma. Eis o que ele diz na primeira carta aos Coríntios 7: 3-6 (NTLH): “O homem [casado] deve cumprir o seu dever como marido, e a mulher deve também cumprir o seu dever como esposa. A esposa não manda no próprio corpo [!]; quem manda é o marido [!]. Assim também o marido não manda no seu próprio corpo; quem manda é a sua esposa. Que os dois não se neguem um ao outro, a não ser que concordem em não ter relações por algum tempo a fim de se dedicar à oração [!]. Mas depois devem voltar a ter relações, a fim de não caírem nas tentações de Satanás por não poderem se dominar. Não digo isso como uma ordem, mas como uma sugestão”. (Compare-se 7:35: “Eu estou dizendo isso porque quero ajudá-los. Não estou querendo obrigar ninguém a nada” [NTLH] Que bom.).

Muitos autores têm procurado abrandar um pouco a dureza da posição de Paulo nessas passagens da carta aos Coríntios (apesar do “não estou querendo obrigar ninguém a nada”), chamando atenção para o fato de que a ética sexual que ele recomenda é uma “ética interina“, visto que ele acredita que o fim do mundo está muito próximo (vide 7:29 [“não nos resta muito tempo”], 7:31 [“este mundo, como está agora, não vai durar muito”].

No entanto, isso não alivia muito a dureza da posição paulina, pois Paulo chega a dizer que, exatamente por causa da exiguidade de tempo para cumprir a tarefa de ir por todo mundo e evangelizar a toda criatura (Marcos 16), “daqui em diante os casados devem viver como se não tivessem casado” (primeira carta aos Coríntios, 7:29 [NTLH] – minha ênfase). A vida de casado traz muitos problemas (7:28), esclarece ele, e, além disso, tanto o homem casado quer agradar sua mulher como esta quer agrada-lo (7:33), e, por isso, os casados são “puxado[s] para duas direções diferentes” (7:34): agradar o cônjuge e dedicar-se ao trabalho de Deus. “O solteiro”, não: ele “se interessa [somente] pelas coisas do Senhor porque quer agrada-lo” (7:32).

B. POST SCRIPTUM 2 DE 2/12/2015

Hoje fui reler Agostinho, especialmente A Cidade de Deus, capítulo XIV, em que ele discute em detalhe essas questões, para cotejar sua posição com a de Paulo.

Algumas observações preliminares:

a) Agostinho não pode ser interpretado como propondo uma “ética interina”, porque viveu nos séculos IV e V e, portanto, sabia que o fim do mundo não estava tão próximo como Paulo acreditava em meados do  século primeiro – Paulo provavelmente morreu por volta de 66 AD;

b) Agostinho é bem mais radical do que Paulo em sua ética sexual: ele chega muito próximo de considerar a prática do sexo pecaminosa, só não afirmando isso por causa do “sede fecundos” (Deus não iria comandar aos seres humanos que fizessem algo que só se pode fazer pecando);

c) Agostinho é mais imaginativo e criativo do que Paulo ao interpretar as passagens bíblicas, chegando, por vezes, às raias do pitoresco.

Quanto à primeira observação, é preciso fazer uma ressalva. Agostinho acreditava (como Paulo, antes dele, e como vieram a acreditar Lutero e Calvino, depois dele) na predestinação dos salvos (eleitos) e dos condenados (que ele hesita em chamar de rejeitados, porque, fazendo alguma ginástica mental, na qual é mestre, ele prefere dizer que foi o homem que rejeitou a Deus, não o contrário). Além disso, Agostinho acreditava que o número dos eleitos é pré-determinado e fixo. Assim, ele também era partidário de uma “ética interina”: o comando dado ao primeiro casal humano de de “ser fecundo, crescer e multiplicar-se”, e que é aplicável à sua posteridade, só faz sentido, depois da queda, enquanto o número dos eleitos não estiver ainda preenchido. Uma vez preenchida a cota, o ser humano fica desobrigado de cumprir esse comando, porque daí o fim do mundo estará iminente. O problema é que ninguém sabe quando a cota será preenchida. Mas Agostinho achava que estava muito próximo o dia.

Quanto à segunda e a terceira observações, Agostinho enfrenta alguma dificuldade para lidar com a questão, que ele mesmo se propõe, acerca de como seria a vida conjugal de Adão e Eva no Paraíso se eles não tivessem pecado e tivessem continuado como Deus os criou. Teriam eles relações sexuais ou eles se seriam fecundos e se multiplicariam de alguma outra forma? Um problemão para quem considera o sexo como algo quase pecaminoso…

A solução de Agostinho, detalhada em A Cidade de Deus, capítulo XIV, e no seu tratado Casamento e Concupiscência, é, no mínimo, criativa e engenhosa. No Paraíso, Adão e Eva não tinham o que nós hoje chamamos desejo sexual ou tesão (lascívia, concupiscência, volúpia, etc. são os termos bíblicos e teológicos normalmente empregados no contexto – o termo mais técnico é libido). Por isso viviam nus sem ter vergonha (Agostinho constrói muito em cima desse aspecto do relato bíblico). Mas eles sabiam que tinham de ser fecundos e multiplicar-se – e certamente sabiam como proceder para chegar a isso. Não tendo desejo sexual e tesão, como os nossos primeiros pais iriam conseguir que seus órgãos sexuais ficassem prontos para exercer a tarefa reprodutiva (o problema maior é o do homem, mas crédito seja dado a Agostinho que se preocupa também com a prontidão para o ato reprodutivo do órgão sexual feminino). É aqui que entra em jogo a imaginação e criatividade de Agostinho. Não podendo depender do desejo sexual, nossos primeiros pais, no Paraíso, tinham de ativar seus órgãos sexuais para o ato reprodutivo por um exclusivo ato de vontade (sem envolver emoções, sentimentos, desejos). Não estando contaminados pelo pecado ainda, e estando ainda de posse de sua natureza não corrompida, eles podiam controlar seus órgãos sexuais por meros atos da vontade da mesma forma que nós, hoje, controlamos os movimentos de, digamos, nossos braços, nossas mãos, e nossos dedos. Assim, por mera volição, seus órgãos sexuais ficariam prontos. (A modéstia de Agostinho o impede de explicitar mais, mas é evidente que se trata da imprescindível ereção masculina e da recomendável lubrificação feminina).

Mas a criatividade agostiniana vai além. Ele acredita que, no Paraíso, teria sido possível que Adão impregnasse Eva sem penetrá-la, apenas deixando que sua semente escorresse para dentro dela sem que ela perdesse a sua virgindade (em o que seria um prenúncio da “virgindade perpétua” de Maria?). Especula Agostinho: se o sangue menstrual pode escorrer de dentro da virgem para fora sem desvirgina-la, o sêmen masculino pode escorrer de fora para dentro dela pelo mesmo canal, passando pelo pequeno orifício existente no hímen das virgens, tudo isso sem desejo e sem tesão – por meros atos da vontade. E eles poderiam fazer isso sem se esconder, porque não haveria por que sentir vergonha, pois esse ato seria equivalente (no Paraíso) ao ato de, voluntariamente, estender o braço e fazer uma carícia no rosto do outro.

Mas agora, caídos, fora do Paraíso, como os cristãos que se acreditam eleitos devem proceder? Outro problemão. Agostinho, que foi bastante devasso em sua mocidade (a dar crédito ao seu próprio relato em suas Confissões – na realidade ele parece ter sido bem menos devasso do que mais tarde imaginou ou inventou), sabia que, hoje, com sua natureza corrompida pelo pecado original, o ser humano é incapaz de controlar seu corpo (incluindo seus sentimentos e desejos), em especial seus órgãos sexuais, por meros atos da vontade, como nossos primeiros pais teriam sido capazes de fazer no Éden. Hoje, com a natureza que temos, é impossível (ele admite) manter o tipo de relações sexuais que Adão e Eva teriam tido (ou tiveram) no Paraíso, antes de pecar.

A posição de Agostinho destaca várias nuances, mas vou sublinhar apenas três:

a) Como a cota dos eleitos deve estar próxima de ser preenchida, nada impede que “os fortes” se dediquem à virgindade e ao asceticismo sexual. Ele próprio, certamente “um forte”, depois de se converter, virou asceta e, pelo que consta, convenceu seu filho, Adeodato (tido com uma “concubina”, antes da conversão), a fazer o mesmo.

b) Para “os fracos”, sempre há o casamento. Mas mesmo dentro do casamento, Agostinho recomenda a abstinência – se não total (como no caso do “casamento continente”, já mencionado), pelo menos tão rapidamente quanto possível, antecipando ao máximo o momento em que o casal perde o interesse sexual um pelo outro. [Acho uma lástima que ele tentasse estimular e apressar o desinteresse sexual do casal dentro casamento…]

c) Enquanto não chega o momento da abstinência total dentro do casamento, o sexo deve ser praticado com o mínimo de desejo e tesão indispensável para a consumação do ato procriativo – que é a única finalidade legítima para esse tipo de “conjunção carnal”. Assim, nada de carícias preliminares, nada de rodeios desnecessários, nada de sofisticação e variedade nas posições: coisa simples, básica, e rápida (como diz a mulher citada no Post Scriptum seguinte).

Por enquanto, é isso. Não vou conseguir parar, agora que comecei…

C. POST SCRIPTUM DE 3/12/2015:

Mudança de cena rápida. Salta-se do século V para o século XXI.

Para aqueles que não acreditam que essas ideias causam dor e sofrimento, e, por cima, consciência de culpa em quem as desconsidera mas acha que deveria leva-las a sério, eis o que afirma, em uma consulta publicada hoje (3/12/2015), uma mulher casada, de 35 anos. A consulta está no Blog de Regina Navarro Lins, psicanalista, hospedado no site do UOL, na seção “Mulher”, na subseção “Comportamento”, e pode ser conferida em http://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2015/12/03/meu-marido-e-um-homem-maravilhoso-mas-o-sexo-com-ele-e-uma-tragedia/. A mulher atribui a causa daquilo que ela considera a tragédia de sua vida sexual ao fato de o marido ser evangélico.

“Meu marido é um homem maravilhoso, mas o sexo com ele é uma tragédia!” [Título da matéria].

“Hoje criei coragem e resolvi contar meu caso. Tenho 35 anos, sou casada há 13, tenho dois filhos e uma relação estável. Meu marido, 45 anos, é um homem maravilhoso: trabalhador, não deixa nada faltar em casa e é um pai exemplar. Mas como na vida nada é perfeito, nosso relacionamento na cama é uma tragédia. Não consigo me realizar no sexo; as nossas relações são rápidas e superficiais. Não há preliminares. Pelo fato de ele ser evangélico, trata o sexo apenas para reprodução. Tenho desejos normais de transar de todas as formas. Sexo oral nem em sonho; ele considera isso pecado. Acredita que será castigado e não aceita de jeito nenhum. Já conversamos várias vezes sobre isso, e não existe a possibilidade nenhuma de ele aceitar e mudar. Não sei o que eu faço. Fico irritada, mal humorada, deprimida, feia… não sei o que é gozar numa relação; não quero morrer gozando apenas na masturbação. Não quero deixar meu casamento por causa disso, mas também não quero seguir com essa vida de secura. O que eu faço? ” [Sublinhado acrescentado por mim, EC].

Artigo escrito em Salto, em 29 de Novembro de 2015, e revisto várias vezes em dias subsequentes, tendo-lhe sido acrescentados esses três PS em 2 e 3 de Dezembro de 2015, respectivamente.

 

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