Teologia Liberal: Uma Tentativa de Entendê-la – 2

Vou transcrever aqui, em tradução minha, duas páginas do livro The Story of Christian Theology: Twenty Centuries of Tradition & Reform (IVP Academic, 1999), de Roger E. Olson, acerca da Teologia Liberal. São as duas primeiras páginas do Capítulo 32, the tem o título “Liberal Theology Accomodates to Modern Culture” (pp.538-539).

Daqui em diante, citação de Roger E. Olson, inclusive com as notas de rodapé dele.

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Como o Pietismo, o Puritanismo e o Deísmo, a Teologia Liberal é uma categoria muito mal compreendida e frequentemente rotulada erroneamente. As pessoas geralmente consideram a Teologia Liberal um conjunto de teses negativas, em vez de enxerga-la como uma abordagem distinta e positiva à questão da metodologia teológica. Em outras palavras, o conteúdo da Teologia Liberal é visto por alguns como a negação do nascimento virginal de Jesus, ou de sua ressurreição corporal, ou de ambas as coisas. Outros a identificam com a negação da doutrina da inspiração bíblica e a rejeição de dogmas como a divindade de Cristo e a Trindade.

Sem dúvida alguns — talvez muitos — dos teólogos protestantes liberais do século 19 e 20 tenham negado a veracidade de todos esses itens que integram a ortodoxia protestante clássica. A maioria questionou pelo menos alguns deles.

Mas para chegar ao coração do pensamento protestante liberal, precisamos investigar por que seus principais teólogos rejeitaram crenças tradicionais do Cristianismo.  Para fazer-lhes justiça, precisamos reconhecer que, pelo menos na forma de ver as coisas que eles próprias adotavam, eles não estavam negando e rejeitando a tradição: estavam, isso sim, reintepretando e reconstruindo as doutrinas tradicionais. Além do mais, os pensadores liberais clássicos discordavam, entre si, acerca de como reinterpretar e reconstruir a doutrina cristã em seus detalhes. O movimento não pode ser caracterizado como uma tentativa de rejeitar algumas crenças doutrinárias, devendo ser visto como um esforço de transformar o pensamento cristão à luz do novo contexto cultural representado pela Modernidade.

Esta, portanto, talvez possa servir como uma definição de trabalho preliminar da teologia protestante liberal em sua fase áurea ou clássica: o que todos os seus precursores e proponentes tinham em comum era um reconhecimento máximo, dentro da teologia cristã, das proposições da modernidade. [Nota 1: A frase “reconhecimento máximo, dentro da teologia cristã, das proposições da modernidade” foi cunhada por Claude Welch, em seu livro Protestant Theology in the Nineteenth Century, Vol. 1, 1799-1870 (New Haven, Conn., Yale University Press, 1972), p.142. Muitos livros escritos por teólogos liberais e conservadores tentar dissecar o movimento e discernir seu foco ou sua essência. Três que se concentram no desenvolvimento do pensamento teológico protestante na América do Norte e que influenciaram de forma especial a interpretação que este autor dá àquele movimento são: Kenneth Cauthen, The Impact of American Religious Liberalism, 2a ed. (Lanham, Md.: University Press of America, 1983); William R. Hutchison, The Modernist Impulse in American Protestantism (Oxford: Oxford University Press, 1982); e Donald E. Miller, The Case for Liberal Christianity (San Francisco: Harper & Row, 1981).] Teólogos liberais estavam convencidos de que a cultura humana havia dado um salto quantitativo para frente durante o Iluminismo e que a existência própria do Cristianismo como algo além de uma religião popular privatizada dependia de um esforço concentrado para atualiza-lo e adequa-lo àquilo que havia de melhor no “projeto de modernidade” do Iluminismo. Em outras palavras, ou a teologia cristã se modernizava ou morreria como religião pública com apelo e influência universais. Os teólogos liberais estavam totalmente persuadidos de que se a teologia cristã não se ajustasse ao projeto de modernidade do Iluminismo, ela se tornaria uma espiritualidade supersticiosa e esotérica que só seria adotada por pessoas atrasadas e não educadas — algo assim como a astrologia. Como disse um dos principais popularizadores da Teologia Liberal disse, em um sermão doutrinário feito à sua congregação protestante americana em 1913, “Esta geração precisa ter o pensamento melhor, mais elevado e sofisticado pensamento dos nossos dias sobre os grandes temas da vida religiosa”. [Nota 2: Welch, Protestant Theology, 1:142.] Isso é necessário porque, quando “questões doutrinárias são apresentadas na forma em que eram adotadas cinquenta anos atrás, elas não produzem convicção alguma na mente das pessoas: elas simplesmente não merecem nenhum crédito e nenhuma aceitação”. [Nota 3: Washington Gladden, Present Day Theology, 2a.ed. (Columbus, Ohio: McClelland, 1913), pp.3-4.] Isso acontece, como explicou Washington Gladden, porque a filosofia moderna, a ciência e a crítica bíblica do nosso tempo [1913] nos deram informações que os formuladores dos credos e das doutrinas do Cristianismo de antigamente simplesmente não tinham, e esse fato faz toda a diferença. Os jovens que são treinados nas igrejas apenas nas doutrinas tradicionais, sem que estas sejam revistas e corrigidas à luz de novos e modernos conhecimentos, fatalmente perderão a fé no Cristianismo quando saírem para trabalhar no mundo contemporâneo e encontrarem novos conhecimentos e novos pontos de vista.

Teólogos liberais não concordavam entre eles sobre como reconstruir as crenças cristãs à luz da modernidade, mas eles eram unânimes acerca da necessidade de dar continuidade ao projeto liberal fundamental da teologia moderna. Embora nenhum teólogo liberal importante do século 19 estivesse disposto a colocar as teses da modernidade no mesmo plano que a Bíblia, todos eles viam o pensamento moderno como uma ferramenta necessária e indispensável para a interpretação da Escritura e para a definição daquilo que poderia ser considerado a essência da verdade cristã. Era esse consenso que os tornava, a todos, “teólogos liberais”. Alguns eram mais radicais em suas conclusões, descartando totalmente qualquer crença literal no sobrenatural ou no miraculoso. Poucos, porém, chegaram a tanto. Mais frequentemente, os teólogos liberais do Protestantismo do século 19 diminuíam a importância do sobrenatural ou simplesmente não tocavam no assunto. O mesmo é verdade em relação às doutrinas da divindade de Cristo e da Trindade. Alguns as rejeitavam totalmente, mas a maioria preferia ignora-las ou, então, reinterpreta-las radicalmente. Cada um, de seu próprio jeito, tentou construir uma nova teologia cristã que fosse completamente compatível com aquilo que entendiam ser o melhor pensamento da modernidade na filosofia, na ciência e na crítica bíblica. Não havia nenhum conjunto de conclusões acerca do qual todos os teólogos liberais estivessem de acordo.

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Fim da citação.

Em Salto, 28 de Fevereiro de 2016

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