A Ciência e o Sagrado: O Alargamento do Natural e o Encolhimento de Deus

Ou vejamos.

A religião (em que Deus geralmente figura proeminentemente) teve início, segundo tudo indica, diante da necessidade de o ser humano tentar entender – e explicar para os outros – fenômenos que, à primeira vista, pareciam ininteligíveis – e, portanto, inexplicáveis.

Por que é que o meu filho morreu logo depois de nascer e o do vizinho não? Por que é que a minha colheita foi boa e a do vizinho ruim, quando aparentemente fizemos, no plantio, no cultivo e na colheita, as mesmas coisas? Por que é que, de vez em quando, há enchentes que arrasam tudo o que existe – mas algumas pessoas, de forma aparentemente inexplicável, são salvas? Por que é que o enfarte de um permite que ele se restabeleça e o de outro é fulminante e o mata no ato? Por que é que existem raios que matam pessoas e animais e destroem propriedades? Porque há pessoas de diferentes cores? Por que é que algumas pessoas parecem acumular em si mesmas tudo o que é característica positiva e talento, e outras parecem não ter nenhuma dessas características positivas e aparentemente não têm talento algum? Por que os seres humanos falam línguas diferentes?

Para os povos primitivos a maneira mais fácil de explicar esses fenômenos era atribuindo-lhes causas pessoais, não causas puramente naturais. Os povos primitivos eram politeístas, e acreditavam na existência de inúmeros deuses – segundo eles, havia deus para tudo o que é coisa: um deus para a trovão, outro para o raio, outro para as tempestades, outro para as colheitas, outro para a fecundidade, outro para o amor, etc. Daí para o surgimento de práticas religiosas a distância é pequena: se eu agradar este ou aquele deus, através de oferendas e sacrifícios, através de louvor e adoração, ele deverá “abençoar-me e guardar-me, velar sobre o meu levantar e o meu deitar, erguer para mim o seu rosto e me dar paz” (mistura de orações judaicas antigas).

No mundo antigo, tudo era religião, deuses explicavam tudo, a esfera do sagrado era ampla – e a esfera do natural, e, consequentemente da razão e da ciência (esta explicando o universo natural) estreita.

Com o surgimento da ciência, a esfera do natural foi sendo gradualmente alargada e a esfera do sagrado foi sendo gradativamente reduzida – Deus foi se encolhendo. Por quê? Porque a ciência começou a ser capaz de explicar eventos naturais através de causas naturais, não de causas sobrenaturais (ação de deuses pessoais). Marés? Explicam-nas as fases da lua? Boa ou má colheita? Explicam-nas técnicas agrícolas, época de plantio, técnicas de cultivo, como tratamento da terra, fertilizantes, etc., a forma da colheita… Doença e saúde não eram mais atribuíveis a espíritos maus, causadores de doenças, nem sucesso à ação de poderosos anjos da guarda, protetores da saúde…

É verdade que, no surgimento da ciência moderna, alguns filósofos e teólogos acreditavam que sempre haveria eventos que a ciência nunca conseguiria explicar. [Vide, acerca dessa questão, meu artigo “Milagres, a História e a Ciência: Uma Análise do Argumento de Hume”, na revista Manuscrito, de 1978). Esses filósofos e teólogos acreditavam ser capazes de dizer, a priori, o que a ciência poderia ou não poderia explicar, porque (a) aristotelicamente, acreditavam que cada ser tem uma natureza ou essência inteligível, e (b) também acreditavam que é possível descobrir a natureza de qualquer ser, e, por conseguinte, determinar o que esse ser é capaz ou não é capaz de realizar, por suas próprias forças. Se um ser (animado ou inanimado) realiza algo que jaz além de sua capacidade, não pode ter sido a causa eficiente do que se produziu, que deve ser atribuída a um agente sobrenatural (qualificando-se o fato como um milagre, portanto).

Gradativamente, porém, a ciência opôs a essa fé uma crença metafísica oposta: a de que, mesmo que a ciência atual não explique um determinado fenômeno, ele poderá ser explicado cientificamente (i.e., natural e não sobrenaturalmente) pela ciência do futuro. Essa crença metafísica pressupõe (a) o abandono da ideia aristotélica de que é possível conhecer a priori a natureza ou essência das coisas, e (b) a adoção da ideia de que as coisas não têm natureza ou essência cognoscível a priori, e que a única forma de saber o que uma coisa é ou não capaz de fazer é através da experiência – ou seja, a posteriori. Assim, admite-se a possibilidade de que eventos anteriormente considerados miraculosos aconteçam (curas, por exemplo), mas apenas porque se retira deles o caráter miraculoso, sendo eles transformados em eventos puramente naturais, explicáveis por causas não sobrenaturais (como a sugestão, no caso de curas).

Isso posto, não é difícil entender porque, à medida que o conhecimento do universo se alargava, o espaço reservado a Deus encolhia, à medida que a ciência avançava o sagrado recuava.

Note-se que a ciência, além de remeter para o futuro a explicação de alguns acontecimentos que não consegue explicar hoje, também admite a possibilidade de que, na vida das pessoas, possa haver, em alguma medida, sorte e azar. Os antigos tendiam a acreditar num universo talvez mais determinista do que a ciência – só que o determinismo dos antigos era de caráter pessoal, e, por isso, frequentemente caprichoso, suscetível a preces, orações, oferendas, sacrifícios, etc., enquanto o determinismo da ciência é natural – uma sequência de eventos determina a seguinte. Neste caso, é uma questão de sorte ou azar em que sequência de eventos uma pessoa em particular pode se encontrar. Se está numa sequência de eventos que lhe trará infortúnio, nenhuma prece, oração, oferenda ou sacrifício mudará o resultado. [Vide a esse respeito um breve artigo que escrevi, faz tempo, sobre “Sorte e Azar”, e uma série de pequenos artigos meus sobre a providência e as coincidências – aquilo que chamo de “provincidência”… Eles estão todos em meus blogs.]

Note-se também que a ação humana só foi ganhando espaço dentro do universo determinista da ciência aos poucos e com dificuldade – e não sem enfrentar grande oposição.

Os deterministas mais rígidos acreditavam que mesmo a ação humana é plenamente determinada por causas anteriores, e que, portanto, não é possível imputar responsabilidade a um ser humano, da mesma forma que não é impossível imputá-la a um rio que destrói e mata.

Os defensores do livre arbítrio, no que diz respeito à ação humana (ainda que plenamente deterministas em relação a eventos naturais), acreditavam que a ação humana é explicável em termos de razões, de objetivos a serem alcançados, não de causas puramente naturais. Assim, postulavam que uma ação humana pode iniciar uma nova sequência causal, que não tem causas antecedentes e que só pode ser explicável pela decisão livre de um ser humano de alcançar algum objetivo através da realização de uma sequência de ações.

Esse desacordo tem levado a uma grande disputa acerca da explicação da ação humana. Uma ação humana, segundo os defensores do livre arbítrio, inicia uma sequência causal totalmente nova, quebrando a cadeia determinista dos eventos naturais.

Mas, se é possível que uma ação humana quebre uma cadeia causal natural, por que não admitir ação sobrenatural – genuínos milagres, enfim, atos de Deus? A unidade dificuldade está em estabelecer a existência de Deus, ou do sobrenatural, independentemente dos fatos que supostamente justificariam a crença na sua existência. Se fosse possível estabelecer que Deus existe através de um argumento a priori (como Anselmo e Descartes tentaram fazer), daí sim seria possível invocar a ação divina para explicar sequências causais doutra forma inexplicáveis. Mas usar sequências causais inexplicáveis como justificar a crença na existência de um Deus não doutra forma demonstrada e, depois, usar a existência de Deus para explicar as sequências causais em pauta, parece envolver a falácia do argumento em círculo, do petitio principii.

Enfim…

Fazer o quê? Apelar para a fé? Mas por que para alguns ter fé, crer em entidades ou eventos sem que haja, para essas entidades e para esses eventos, evidência ou justificativa bastantes, parece tão fácil e, para outros, tão difícil que beira o impossível?

Fazer o quê? Apelar para a predestinação? Mas a predestinação pressupõe a existência de um Deus que predestina – e é a existência desse Deus que se tornou problemática… Como os seus milagres, a própria existência de um Deus milagreiro e predestinador parece ter sido expulsa do universo – que deixou de conter uma dimensão sobrenatural e passou a ser visto como apenas natural – se bem que, em alguns aspectos, profundamente misterioso – na verdade, agora, tão misterioso e incrível que agora é o própria positivismo da ciência que é questionado…

Em Tempo: Você tendo tempo e achando este artigo interessante, procure ler o livrinho de David Hume, The Natural History of Religion.

Iniciado em Campinas, 1997 (26 de Outubro); terminado (?) em Salto, 2019 (7 de Janeiro).

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Debate na Folha de S. Paulo sobre Fundamentalismos e Ateísmo

[Transcrevo aqui, para fins didáticos, três artigos publicados na Folha de S. Paulo, há quase quatro anos, sobre Fundamentalismos e Ateísmo — incluindo um sobre a noção de Fundamentalismo ateu]

24/11/2011

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/10741-fundamentalismo-ateu.shtml

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

Fundamentalismo ateu

Além dos avanços na ciência feitos por sacerdotes, a Igreja ofereceu ao mundo moderno o seu maior instrumento de cultura, ou seja, a universidade.

Voltávamos, Francisco Rezek e eu, de uma posse acadêmica em Belo Horizonte quando ele utilizou a expressão “fundamentalismo ateu” para se referir ao ataque orquestrado aos valores das grandes religiões que vivemos na atualidade.

Lembro-me de conversa telefônica que tive com meu saudoso e querido amigo Octavio Frias, quando discutíamos um editorial que estava para ser publicado sobre encíclica do papa João Paulo 2º, do qual discordava quanto a alguns temas.

Argumentei que a encíclica era destinada aos católicos e que quem não o era não deveria se preocupar. Com inteligência, perspicácia e bom senso, Frias manteve o editorial, mas acrescentou a observação de que o papa, embora cuidando de temas universais, dirigia-se fundamentalmente aos de fé cristã.

Quando fui sustentar, pela CNBB, perante o STF, a inconstitucionalidade da destruição de embriões para fins de pesquisa científica – pois são seres humanos, já que a vida começa na concepção -, antes da sustentação fui hostilizado, a pretexto de que a Igreja Católica seria contrária à ciência e que iria falar de religião, não de ciência e direito.

Fui obrigado a começar a sustentação informando que a Academia de Ciências do Vaticano tinha, na ocasião, 29 Prêmios Nobel, enquanto o Brasil até hoje não tem nenhum, razão pela qual só falaria de ciência e direito. Mostrei todo o apoio emprestado pela Academia às experiências com células-tronco adultas, que estavam sendo bem-sucedidas, enquanto havia um fracasso absoluto nas experiências com células-tronco embrionárias.

De lá para cá, o sucesso com as experiências utilizando células tronco adultas continuam cada vez mais espetaculares. Já as pesquisas com células embrionárias permanecem em estágio “embrionário”.

Trago essas reminiscências, de velho advogado provinciano, para demonstrar minha permanente surpresa com todos aqueles que, sem acreditar em Deus, sentem necessidade de atacar permanentemente os que acreditam nos valores próprios das grandes religiões, que, como diz Toynbee em seu “Estudo da História”, terminaram por conformar as grandes civilizações.

Por outro lado, Thomas E. Woods Jr., em seu livro “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental”, demonstra que, além dos fantásticos avanços na ciência feitos por sacerdotes cientistas, a Igreja ofereceu ao mundo moderno o seu maior instrumento de cultura e educação, ou seja, a universidade.

Aos que direcionam essa guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã e cumprem seu papel, nas mais variadas atividades, buscando a construção de um mundo melhor, creio que a expressão do ex-juiz da Corte de Haia é adequada.

Só não se assemelham aos “fundamentalistas” do Oriente Médio porque não há terroristas entre eles.

Num Estado, o respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade é a prova de maturidade democrática, como, aliás, o constituinte colocou no artigo 3º, inciso IV, da nossa Constituição Federal, ao proibir qualquer espécie de discriminação.

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 76, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio.

8/12/2011

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/13603-o-fundamentalismo-de-cada-dia.shtml

DANIEL SOTTOMAIOR

O fundamentalismo de cada dia

É bom saber que os religiosos reconhecem o dano causado pelo fundamentalismo, mas que fique claro: a conta não pode ser debitada ao ateísmo

Segundo Ives Gandra, em recente artigo nesta Folha (“Fundamentalismo ateu”, 24/11), existe uma coisa chamada “fundamentalismo ateu”, que empreende “guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã”. Nada disso é verdade, mas fazer os religiosos se sentirem atacados por ateus é uma estratégia eficaz para advogados da cúria romana. Com o medo, impede-se que indivíduos possam se aproximar das linhas do livre-pensamento.

É bom saber que os religiosos reconhecem o dano causado pelo fundamentalismo, mas resta deixar bem claro que essa conta não pode ser debitada também ao ateísmo.

Os próprios simpatizantes dos fundamentos do cristianismo, que pregam aderência estrita a eles, criaram a palavra “fundamentalista”. Com o tempo, ela se tornou palavrão universal. O que ninguém parece ter notado é que, se esses fundamentos fossem tão bons como querem nos fazer crer, então o fundamentalismo deveria ser ótimo!

Reconhecer o fundamentalismo como uma praga é dizer implicitamente que a religião só se torna aceitável quando não é levada lá muito a sério, ideia com que enfaticamente concordam centenas de milhões de “católicos não praticantes” e religiosos que preferem se distanciar de todo tipo de igrejas e dogmas.

Já o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses, e não tem qualquer doutrina. Por isso, fundamentalismo ateu é um oximoro: uma ficção ilógica como “círculo quadrado”.

Gandra defende uma encíclica papal dizendo que “quem não é católico não deveria se preocupar com ela”. No entanto, quando ateus fazem pronunciamentos públicos, preocupa-se tanto que chama isso de “ataque orquestrado aos valores das grandes religiões”.

Parece que só é ataque orquestrado se for contra a religião. Contra o ateísmo, “não se preocupem”.

Aparentemente, para ele os ateus não têm os mesmos direitos que religiosos na exposição de ideias.

A religião nunca conviveu bem com a crítica mesmo. Já era hora de aprender. Se há ateus que fazem guerra contra cristãos, eu não conheço nenhum. Nossa guerra é contra ideias, não contra pessoas.

Os ateus é que são vistos como intrinsecamente maus e diuturnamente discriminados pelos religiosos, não o contrário. Existem processos movidos pelo Ministério Público e até condenação judicial por causa disso.

O jurista canta loas ao “respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade”, mas aqui também pratica o oposto do que prega: ele está ao lado da maioria que defende com entusiasmo que o Estado seja utilizado como instrumento de sua própria religião.

Para entender como se sente um ateu no Brasil, basta imaginar um país que dá imunidade tributária e dinheiro a rodo a organizações ateias, mas nenhum às religiosas; que obriga oferecimento de estudos de ateísmo em escolas públicas, onde nada se fala de religião.

Um país que assina tratados de colaboração com países cuja única atividade é a promoção do ateísmo; cujos eleitores barram candidatos religiosos; que ostenta proeminentes símbolos da descrença em tribunais e Legislativos (onde se começam sessões com leitura de Nietzsche) e cuja moeda diz “deus não existe”. E depois os fundamentalistas que fazem ataque orquestrado somos nós.

DANIEL SOTTOMAIOR é presidente da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos).

10/12/2011

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/13913-fundamentos-do-ateismo.shtml

HÉLIO SCHWARTSMAN

Fundamentos do ateísmo

SÃO PAULO – Já que dois amigos meus, Ives Gandra Martins e Daniel Sottomaior, se engalfinharam em polêmica acerca de um suposto fundamentalismo ateu, aproveito para meter o bedelho nessa intrigante questão. Como não poderia deixar de ser, minha posição é bem mais próxima da de Daniel que da de Ives.

Não se pode chamar de fundamentalista quem exige provas antes de crer. Aqui, o alcance do ceticismo é dado de antemão: a dúvida vai até o surgimento de evidências fortes, as quais, em 2.000 anos de cristianismo, ainda não apareceram.

Ao contrário, dogmas vão contra tudo o que sabemos sobre o mundo. Virgens não costumam dar à luz e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar vinho em sangue seria internado. Quando se trata de religião, porém, aceitamos violações à física e à lógica. Por quê?

Ou Deus existe e espera de nós atitudes exóticas -e inconsistentes de uma fé para outra-, ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas esquisitas no modo religioso.

Fico com a segunda hipótese. Corrobora-a um número crescente de cientistas que descrevem a religiosidade ou sua ausência como estilos cognitivos diversos. Ateus privilegiam a ciência e a lógica, ao passo que crentes dão mais ênfase a suas intuições, que estão sempre a buscar padrões e a criar agentes.

Posta nesses termos, fé e ceticismo se tornam um amálgama de influências genéticas e culturais difícil de destrinchar -e de modificar.

Como bom ateu liberal, aplaudo avanços no secularismo, já que contrabalançam o lado exclusivista das religiões, que não raro degenera em violência e obscurantismo. Mas, ao contrário de colegas mais veementes, acho que a religião, a exemplo do que se dá com filatelia, literatura e sexo, pode, se bem usada, ser fonte legítima de bem-estar e prazer.

HÉLIO SCHWARTSMAN é articulista diário da Folha de S. Paulo (helio@uol.com.br)